quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Parte 1. Consideraçoes gerais para um realizador autoral promissor na cena audiovisual pernambucana



Antes de discorrer sobre o fenômeno audiovisual que avassala a cidade do Recife, gostaria de me apresentar: sou Raul Luna, 25 anos, videomaker, dj, ilustrador, estudante de arquitetura e membro do coletivo Tv Primavera. Há mais ou menos seis anos, trabalho no furacão audiovisual pernambucano, observando de perto detalhes desse cenário. Arrisco-me a escrever uma coluna semanal voltada para o jovem realizador do audiovisual no estado, criando este guia de higiene, comportamento e comedoria, analisando o comportamento do cineasta promissor diante das situações do dia-a-dia desse profissional. Tudo para mantê-lo atualizado e ajudá-lo a domar essa floresta cultural com muita criatividade.

Fazer o hype e gerar interesse

O primeiro passo para se dar bem no audiovisual pernambucano é saber que você é o seu maior produto. Busque gerar mídia a seu favor e produza o máximo possível, sempre tentando se associar a uma imagem de qualidade, ganhando credibilidade perante a sociedade. Esse é um ponto importante para o jovem realizador, onde muitos se perdem e não obtem êxito, já que não passam de farsas ambulantes. Igualmente importante é nunca subestimar o poder do encontro ocasional com pessoas influentes do cenário pernambucano no bar Capitão Lima. O espaço é uma verdadeira mina de ouro para emergentes, amplamente freqüentado por boêmios, prostitutas, hipsters e cineastas estabelecidos (alvo principal). Fazer a íntima com cineastas no Capitão Lima pode garantir a sua freqüência em círculos restritos do audiovisual, convites para festas de pessoas ricas e, quem sabe até, novas parcerias. Parcerias essas que podem melhorar as condições para a produção do seu curta-metragem e, quem sabe também, de um novo roteiro que possa ser premiado no Ary Severo.

"Tudo pode ser, se quiser será, o sonho sempre vem pra quem sonhar.
Tudo pode ser, só basta acreditar. Tudo que tiver que ser, será"
(Michael Sullivan)


Adote uma persona

Para um diretor promissor no cenário pernambucano, mise-em-scène é indispensável. Adote uma persona, finja-se de louco no meio de uma conversa ocasional ou simplesmente dê alokas. Causar no cenário é importante porque gera nos outros a impressão de uma constante esquizofrenia em você, que imaginam estar relacionada com um processo vulcânico de idéias e pensamentos. É maduro saber que cada pessoa que ocasionalmente você encontra é um consumidor em potencial para a sua arte, portanto não economize nos trejeitos e na excentricidade. Como cineasta promissor, você possui imunidade cultural e, de certa forma, pessoas esperam um comportamento excêntrico de alguém especial.

Como criar uma nova cena

Nunca se deve buscar agradar o peixe grande. Já a aliança com peixes pequenos é de grande importância, porque cria a impressão de existência de uma nova cena. Embora não pareça, é bastante fácil criar uma cena de novos artistas. Vamos lembrar do Manguebeat, por exemplo. Artistas excelentes em 1991, porém sem local na mídia e sendo quase que encarados como putasfarsas de sua geração. O que fizeram? Festas para amigos, manifestos, produtos culturais de guerrilha e conexão com a mídia externa. Importante observar que, graças à mídia sulista (leia-se novela Tropicaliente), o Manguebeat passou a ser conhecido como um fenômeno cultural que varria Recife, mesmo sendo mentira. O processo de criar uma movimentação na cidade em torno do consumo de seu produto gera no consumidor a necessidade de acompanhar um fenômeno que ainda não existe realmente. É eficaz e você ganhará muito dinheiro com isso. A Coca-cola, o Mcdonald's e o Manguebeat fizeram isso muito bem.

Após aprender a lição de como criar a sua cena local de artistas originais, o processo se torna mais fácil para o realizador promissor da cena audiovisual. Todos sabem que, para todo cineasta estabelecido, não existe nada mais apavorante do que uma nova geração de artistas na cidade. Nisso, os cineastas estabelecidos não mais são uma ameaça ao domínio da nova geração. São pessoas tristes, com uma vida sexual insatisfatória e desesperadas por tentar reviver a criatividade do passado. Devemos ter pena e não levar a sério o que dizem.

"Mantenha seu equilíbrio. O equilíbrio depende da serenidade da mente. Jamais se aborreça nem se exalte. Não dê importância às coisas passageiras que lhe vêm de fora. Não se impressione com o que os outros dizem. Siga a conduta ditada por sua consciência, e não perca seu equilíbrio. Caminhe para frente, alegre e certo de que há de vencer, por maiores que sejam as dificuldades do caminho." (Minutos de sabedoria, # 163)

Invente projetos inexistentes

Por diversão, invente e divulgue projetos inexistentes. Elogie seu trabalho (qual o problema de ter consciência de que você tem qualidade?), dando riquezas de detalhes sobre inovação e de sua conexão com a contemporaneidade internacional. A cena é competitiva e, ao mínimo sinal de poder serem passados pra trás, cineastas autorais são capazes de cometer as mais divertidas atrocidades sociais. Observe, ria e ganhe pontos a favor.

O cineasta e a higiene bucal

Este tópico não se aplica apenas aos profissionais da sétima arte, mas a todos, alertando e lembrando que uma higiene bucal bem feita abre muitas portas. É importante não tratar a o assunto como uma escolha: saúde bucal é uma necessidade para a sobrevivência humana.

Sou cineasta. e agora?

Nosso guia recomendará em breve, com o artigo "Como se adaptar a novas gerações de audiovisual e se manter em evidência", dicas de como sobreviver à selva do audiovisual recifense e reconhecer farsas ambulantes. Fique ligado.

Parte 2. Sou produtora cultural. O que devo fazer para me proteger de farsas autorais?




Elis, observando com cautela o set de seu novo filme.


Após publicar o primeiro texto deste meu, seu, nosso guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano, recebi uma avalanche de e-mails de produtoras culturais que buscavam dicas de como agir cautelosamente no mercado da sétima arte. Leitores dessa coluna já sabem que regionalismo é coisa do passado: o mais novo inimigo da classe audiovisual é o cineasta autoral promissor. Estes novos representantes da nova cena esbanjam representatividade de tempo e época, mas saia de baixo quando o assunto for produção de seus curtas-metragens. Não é qualquer um(a) que pode ser produtora para projetos autorais, precisa ter muita sagacidade e jogo de cintura para enfrentar as feras autorais da selva audiovisual recifense. Elas, produtoras culturais, por vezes duras e sexualmente frustradas, por outras vezes doces e afáveis, são verdadeiras hienas da sétima arte.

De psicóloga fracassada a uma produtora de sucesso: conheça a história de Elis, que gerencia a produção de curtas metragens de uma agência em Recife. Formada em psicologia pela Unicap em 1996, Elis Moreira praticou por 6 anos a profissão de psicóloga em um consultório associado ao Hospital das Clinicas de Pernambuco. Especializada em Psicopatologia, Elis não mede afirmações: "Ainda evoco Minkowski quando preciso". Depois de ver seus filhos, frutos de um casamento vazio e de curta duração, terem guarda provisória garantida pelo pai, Elis se viu numa sinuca de bico. O que fazer para preencher o vazio da solidão, a frustração sexual, além da falta de dinheiro e poder, vital para a sobrevivência? A resposta é previsível. Elis se tornou uma produtora de curtas metragens. "A melhor da cidade", afirma.

"Uso a teoria da intimidação. E quando não cumpro o que prometi, finjo que não ouvi, dou aloka e saio do ambiente". Segundo Elis, mais da metade das produtoras culturais de Recife já adotam a mesma técnica. Certa ela, que, visivelmente influenciada pelo nosso primeiro texto, utiliza a persona de vadia emocionalmente desequilibrada como parte do avatar de hiena do audiovisual, apelido que renega. Durante aproximadamente uns 2 anos, Elis trabalhou em diversas produções de baixo orçamento, incluindo algumas universitárias. "Tenho péssimas lembranças dessa época e prefiro não comentar sobre isso", diz.

Durante muito tempo, ela continuou a receber propostas de universitários ególatras e também de cineastas da velha guarda:"Tenho uma idéia que é a sua cara, vamos escrever um roteiro juntos". "Ouvi muito esse tipo de coisa. Meu cu que eu vou sentar pra escrever roteiro!" diz Elis, e complementa: "Geralmente estas são pessoas tristes, que ainda não obtiveram sucesso no que fazem e estão desesperadas por atenção". "Existe um principio que uma produtora recifense sabe muito bem: você não precisa de quem precisa de você. Ponto final." Foi quando Elis conheceu um executivo, representante de uma refinaria, e, após casar-se, pôde escolher a dedo em quais produções autorais desejava trabalhar. "Desenvolvi um selo de qualidade Elis. Hoje, todos sabem que só trabalho em curtas metragens nos quais eu acredito. É uma Elismania, todos os dias diretores me ligam fazendo convites para novas produções. Marco sempre de ir no Raval tomar uns drinks com eles", conta.

"A hiena-malhada (Crocuta crocuta) é a maior e mais conhecida da família das hienas, Hyaenidae. Uma fêmea adulta chega a pesar mais de 70 kg. A hiena-malhada vive nas savanas e desertos da África e é um predador que pode perseguir as suas presas a velocidades de até 55 km/h, caçando em grupos de até 100 indivíduos." (Wikipedia)

Nem todas as produtoras da cidade tiveram a sorte de Elis de casar com um financiador masculino. Para as feias, as não tão astutas ou simplesmente lésbicas, este guia ajuda a como alcançar o sucesso respondendo algumas das perguntas de produtoras culturais que caíram na caixa de e-mails essa semana.

"Estou bastante preocupada. O diretor com o qual eu trabalho vem sendo considerado uma promessa da nova geração do audiovisual. Ele faz estranhos barulhos durante as refeições e costuma também chorar no set. Ontem todos ficaram chocados com um auto-induzido transe artístico onde ele passou 3 horas falando em russo. Estes podem ser considerados sintomas de autoralismo pernambucano promissor? Quais atitudes devo tomar nesta situação? Minha real preocupação é acabar por me tornar uma espécie de Mefisto recifense, quando na verdade apenas quero ser uma produtora cultural. O que devo fazer?"

Obrigado pela pergunta. Primeiramente busque ficar tranqüila, estar calma é sempre importante para tomas decisões corretas. Saiba que adjetivações da mídia especializada, como "nova geração do audiovisual", "revelação", "diretor promissor" e outras similares devem ser encaradas pelo público como medicação placebo. Não significa nada. É mais uma questão de estimulo à produção universitária e massagem do ego, do que um real reconhecimento de importância. Porém, de acordo com os seus exemplos, é bem provável que o diretor com o qual você trabalhe sofra de sintomas de autoria promissora pernambucana. Existem formas de você saber ou não se está em perigo. Sintomas como introspecção, impotência sexual e o uso constante de expressões como " do meu jeito", "tem que ser", "vamos reeditar isso" e "ela não me ama" denotam uma forte inclinação autoral promissora para cineastas recifenses.

Porém, existem sim formas de conviver com o autoralismo, caso realmente seja necessário. Questionar decisões do diretor é o primeiro passo para ele saber que você entende tanto quanto ele nas decisões do curta metragem, o que complica bastante o mise-en-scène do mesmo e te garante ao menos uma boa risada. Mantenha-se no comando. Cineastas recifenses são sim emocionalmente instáveis. Se por acaso algum deles vier pro seu lado com esse papo de "me beija que eu sou cineasta", preste queixa de abuso sexual e mostre quem manda. Estaremos à disposição para responder duvidas em caso de futuros problemas.

"Fui chamada para uma reunião na Fundarpe para justificar o mau uso do dinheiro público em um projeto de um diretor autoral promissor (ególatra, vale dizer), que pretendia recriar o primeiro ensaio da Loustal, em peixinhos. Ele gastou todo o nosso dinheiro em pesquisas de locação e em negas malucas na livraria cultura. O diretor alega que todo o dinheiro foi usado em brainstormings para a produção do filme. Eu acho que ele é uma puta farsa e que brainstorming de cu é rola. O que devo fazer?"

Olá, obrigado por ler o nosso guia. Você tem dois problemas sérios. Primeiro, precisa convencer o governo que o orçamento disponibilizado por este para financiar a produção do seu curta-metragem foi bem gasto. Não menospreze a distração. "Oi?", "Aceita um café?", "Que horas são?" e "Que loucura o caso Isabella, hein?!" são algumas soluções desesperadas, mas que te darão tempo para inventar uma desculpa coesa. Essa é uma questão complicada. Informaremos melhor sobre isso em nosso texto "Como rebater criticas sobre má gestão de dinheiro público com classe". Afinal, dar o chatô e passar despercebida é tarefa diária de qualquer produtora que se preze. O segundo problema se resolve da forma mais fácil e prazerosa: a exposição da farsa. Utilize a mídia especializada para destruir uma carreira cinematográfica. Não sinta pena, já temos demais deles por aí.

Parte 3. Como utilizar o CinePE para networks




CinePe, muito mais do que um festival de cinema: uma grande oportunidade de conseguir cocaína.

Abril é o quarto mês do ano e possui 30 dias, conhecido em Recife como o período de chuva. Pelo fato de nossa cidade ser pobre e desinteressante, é compreensível a empolgação pela presença de tantas pessoas importantes e bonitas, como Raul Gazzola, que aparecem nesta época do ano. Para cineastas, é o momento ideal de conseguir aquele contato com alguem famoso, fingir que está em Gramado, fazer networks, se vestir bem e aproveitar para conferir o que de pior se produz no cinema nacional. O CinePE surge como um oásis de modernidade para o audiovisual wannabe recifense e esse é um momento que deve ser aproveitado intensamente. Hora de esquecer a dívida que o seu curta metragem fez e se divertir nessa semana de encanto, magia e cocaína, que envolve Recife em um estado de ficção social. Na terceira edição do Guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano, o cineasta autoral promissor aprenderá como transformar o CinePE em palco para novos contatos, pavanizações e autógrafos de Carlos Reichenbach.

"You will need to know the difference between Friday and a fried egg. It's quite a simple difference, but an important one. Friday comes at the end of the week, whereas a fried egg comes out of a chicken. Like most things, of course, it isn't quite that simple. The fried egg isn't properly a fried egg until it's been put in a frying pan and fried. This is something you wouldn't do to a Friday, of course, though you might do it on a Friday. You can also fry eggs on a Thursday, if you like, or on a cooker. It's all rather complicated, but it makes a kind of sense if you think about it for a while." (Douglas Adams)

A tão falada (porém pouco compreendida) pavanização

Pavanizar em muito se difere de praticar misenscéne. No mundo mágico do audiovisual, misenscéne é a pratica de se mostrar eficaz, englobando as ações de preocupação no set, introspecção e o simples e famoso piti. A pavanização, por sua vez, mais tem a ver em gerar olhares e agregar valor para sua pessoa, através de desfiles e poses, numa verdadeira Bolsa de Valores do Audiovisual, também conhecida vulgarmente como "tapete vermelho de entrada do CinePE", ou BVA. Sempre alguém está em alta e ou em baixa. É bastante comum a prática de puxar um lero na BVA, arracando olhares dos transeuntes, comprando uma pipoca e re-discutindo o conceito de regionalização da arte. Quem sabe, com uma pavanização bem feita, o cineasta acaba alcançando algo do que tanto almeja: fama, uma namorada ou uma garantia do patrocinio da Chesf para o seu primeiro longa metragem. Pavanizar na Bolsa de Valores te faz perceber que você está no meio de tantas pessoas amantes do cinema e que todas elas estão fora da sessão de mais um longa nacional ruim, que só possui exibição em festivais tapete vermelho.

Recrutando membros para futuros projetos de baixo orçamento

Aindana pavanização, o diretor promissor pode usar o CinePE como campo de recrutamento para produtores, atores e office-boys de seu novo curta-metragem. Muitos se hipnotizam com a industria cinematográfica e, com poucas promessas de exibições, os mais ingênuos ainda são capazes de aceitar as mais hediondas condições de trabalho.

Como pedir autógrafos a Carlos Reichenbach

Ok, você chega a conclusão que aquele barbudo é realmente Carlos Reichenbach. Você já assistiu filmes, além de ter lido vários textos sobre ele no Cinemascópio, o que te garante assunto suficiente para chegar junto e puxar um papo. E, agora que aquela mulher que o acompanha saiu do lado para ir ao banheiro, é o momento certo para chegar junto e subir na vida. Carlos Reichenbach gosta de falar com fãs e dará atenção suficiente ao cineasta pernambucano promissor, que, por sua vez, não perderá tempo, pedindo autógrafos e entregando uma cópia do tratamento final de seu novo roteiro, junto com um dvd contendo seu primeiro filme universitário. O diretor autoral promissor recifense pode achar que, no momento, Carlos Reichenbach não sabe ainda que fala com mais uma fraude do audiovisual, mas certamente se engana. Carlos Reichenbach tudo sabe, Carlos Reichenbach tudo vê.

Dizendo àquele cineasta que na verdade vc não demoniza o trabalho dele e que, na verdade, até gosta.

A BVA também é lugar de fazer amigos. Amigos também cineastas: porque não? Momento certo de dizer aquele cineasta autoral rival que, sim, você gosta do trabalho dele e que nunca falou mal do filme pelas costas quando foi exibido na Fundaj no inicio do ano.

Encontrando antigos desafetos

Encontrar antigos desafetos no tapete vermelho do CinePE é também bastante comum, como aquela produtora do curta metragem que você resolveu engavetar por motivos de "não representar quem você é no momento". Ao observar o olhar de ira em sua direção, utilize-se de duas táticas: (1) egipcia, quando apenas virar o rosto é suficiente para desviar o campo de visão, ou (2) avestruz, quando vc precisará desviar por completo seu corpo para desencontro dos olhares da hiena.

Conseguindo convites para as afterparties

Ninguém liga pras festas-lançamento de filmes, que servem apenas pra divertir o diretor e a equipe de produção. Para os cineastas autorais emergentes, o que realmente interessam são as festas privadas do Recife Palace Hotel, regadas a champagne, pó e jazz. Todos imaginam que, num festival orçado em R$ 1,6 milhoes e com presença de inúmeros astros globais, alguma grana tem que ir pra comprar cristina, né? E esperamos mesmo que vá, porque ao menos existirá alguma forma de se divertir no CinePE. Para um iniciante, conseguir convites para afterparties é o mesmo que ter o seu roteiro aprovado no Ary Severo. Qualquer old school que divide pó com um autoral promissor automaticamente apadrinha, e fará o possível para ajudar sua carreira.

Parte 4. Como não ser mais um sanguessuga dos recursos públicos




Papai do céu, afasta de mim as tentações dos editais para o audiovisual.

Audiovisual rima com estatal. Isto poderia passar por uma pequena coincidência maravilhosa da fonética, mas sabemos que essas duas palavrinhas sapecas possuem muito mais ligação quando se trata da terra do frevo e do maracatu. O que parece ser uma inocente mesada estatal pra ajudar o desenvolvimento cultural se tornou um furúnculo autoral promissor, que enche de pus a sociedade do audiovisual recifense, onde hienas, cobras e palhaços agora dedicam seu tempo a garantir sua fatia desse bolo monetário demoníaco. Alertamos sobre a inescrupulosa questão da vampirização desenfreada para o desenvolvimento do audiovisual pernambucano e o nosso desprezo por quem possui a sua rotina dedicada à captação de recursos públicos.

Em terra de cego, caolho é cineasta

Poucos tem acesso às fatias monetárias disponiveis para os emergentes nesta cidade desprezível. Conseguir financiamento para curta-metragens em 2008 não é tarefa fácil e este é o primeiro passo que indica o seu poder de influência na selva sócio-audiovisual. Seja independentemente, seja através da mendicância, cada vez mais cineastas buscam desesperadamente se firmar e financiar seus projetos autorais, carreiras e manifestos.

"Ele Tenta o homem ao mal, à desobediência a Deus. Ele tenta com maquinações, com astúcia e com armadilhas. É por isso chamado de tentador. Ele tentou três vezes o próprio Cristo, buscando desviá-Lo da missão recebida do Pai. Tentou triunfar sobre aquele que o Criou. Tentação 1: desviar-se da vontade de Deus "Se tu és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães"; Tentação 2: desviar-se da palavra de Deus - "Se tu és filho de Deus, lança-te deste monte abaixo..."; Tentação 3: desviar-se da cruz - "Tudo isso-as riquezas do mundo - te darei se, prostando-te diante de mim, me adorares"." (Formas de atuação do demônio - parte II)

Falando com deus

Novos editais são como ofertas ao pecado, e, para um cineasta autoral promissor, são mais excitantes do que pornografia. Ler este tipo de material evoca os mais diversos e confusos pensamentos, gerando sentimentos de grandeza e poder na mente do profissional do audiovisual. Não tenha dúvida: editais são feitos por satanás. Ele envia pessoalmente cada um de seus discipulos para a terra, que se infiltram como pessoas comuns no nosso cotidiano. Através dos editais para o audiovisual, o demônio controla indiretamente uma nova legião de discipulos, que ainda não sabem estar sob o seu poder. Ao ler um edital, oferencendo tentações, financiamentos e representatividades de tempo e época, recuse. É na verdade um acordo do demônio para roubar a sua alma depois da morte. Pare imediatamente o que esta fazendo e busque entrar em contato com deus, através de uma oração. Bata um lero com nosso senhor que Ele vai afastar as vaidades e ganâncias que o demônio colocou na sua cabecinha de cineasta.

Como financiar seu curta sem a ajuda do governo

Existem atitudes simples que ajudam o profissional do audiovisual recifense a economizar dinheiro, de forma a nao precisar adotar a mendicância cultural como lema de vida. São elas: (1) Guardar a mesada que papai manda todo mês. Ao invés de comprar sucrilho, use a quantia para adquirir fitas MiniDV; (2) Porquinho se mostra indispensável. Pode ser infantil, mas ao menos é honesto; (3) Ganhe uma grana escrevendo resenhas de filmes para a revista online O Grito. Além de faturar uma nota preta e ver filmes gratuitamente na seção de imprensa, você ainda divulga o seu point of view, e de tabela, ganha fãs desocupados; (4) Circo é sempre uma opção. Mulher barbada, trapezista, domador de leões... Parece complicado, mas não pra quem já enfrentou qualquer problema com EDL.

Evite viajar para a Europa

Caso o seu curta metragem experimental de 12 minutos sobre a paisagem bucólica do Rio Capibaribe tenha sido selecionado para ser exibido na Romênia, evite usar esse fato como uma justificativa para pedir uma viagem de graça à Fundarpe. "É importante para o estado de Pernambuco que eu vá" é a maior falácia já contada desde o conceito de contrapartida social. Pode ser importante pra você, mas tenha certeza de que não vai mudar nada para Pernambuco saber que mais um cineasta autoral passou 10 dias curtindo todas na Romênia.

“O chamado "Dossiê Chatô", que eclodiu em maio de 1999, trouxe à tona rumores antigos sobre alguns casos de péssima eficácia do sistema de utilização do dinheiro público como desvio de verbas de produções para utilização particular(...)Em 22 de fevereiro de 2008 foi determinado pela Controladoria-Geral da União (CGU) que Guilherme Fontes e sua sócia na produtora Guilherme Fontes Filme,Yolanda Coeli, terão de devolver mais de R$ 36,5 milhões aos cofres públicos.” (Wikipedia)

Envie uma carta para Eduardo Campos condenando o incentivo ao audiovisual

"Senhor Eduardo Campos, votei em você e estou enviando esta carta para dizer o quanto estou decepcionado com a sua gerência. 12 milhões de reais destinados à produção de projetos culturais independentes significam no mínimo 1 milhão de reais destinados ao consumo de drogas ilícitas. Parabêns por financiar o crime organizado."

Filme em MiniDV e leve sua quentinha para o set

Economizar não é facil. Fazer um filme então, mais dificil ainda. O cineasta que já compreende como a roleta gira sabe como agregar valor para o seu produto: Na falta de condiçoes para filmar em 35mm, registre seu projeto em MiniDV e, de quebra, escreva manifestos sobre o cinema digital, dizendo que ele sempre foi a sua primeira opção. Reforce o carater realista do digital, compare-o ao cinema marginal dos anos 70 e busque dar um sentido conceitual a algo que surgiu por uma situação financeira desfavorável. Outra forma de economizar durante a produção de seu curta metragem autoral é levar sua própria marmita para o set, economizando, em muito, gastos de produção. Opcões não faltam para o cineasta autoral promissor: bife com macarrão, purê de batatinhas ou galinha com feijão.

Parte 5. Sobre a Nuvem Rosa



Nuvem Rosa do audiovisual, maçonaria autoral promissora.

"Sharazan, Sharazan, para o alto Sharazan. Meu pai do céu, meu deus Sharazan, me guia o caminho e me dai a luz. Sharazan, Sharazan, meu deus Sharazan."(Kássio Mário Fontana, músical incidental da versão musical universitária do curta metragem Sharazan)

Na semana passada, como muitos outros presentes na mesma sessão, Ubaldo Ferraz não se sentiu capaz de explicar o porquê de ter achado "Sharazan", mais recente curta do diretor recifense Kássio Mário Fontana, uma puta fraude. Durante um debate em pessoa com o realizador no Cinema da Fundação, Ubaldo colecionou impulsos para perguntar qual havia sido a motivação do mesmo para a realização do projeto, mas, sob receio de soar indelicado de sua parte, optou por não fazer perguntas. Intimidação intelectual e insegurança crîtica ainda enfraquecem Ubaldo, assim como muitos recifenses que acreditam não terem poder de critica suficiente para justificar o não-entendimento de filmes como "Eu quero pipoca, Marlene" e "Ba Ba Ba Ra Bu", também do polêmico diretor.

"Sharazan só dialoga com o seu próprio tempo. É ele, o espaço e os personagens. Qualquer tentativa de adornar isso com qualquer outra coisa seria mero barroquismo da minha parte. (...) A sensibilidade de cada olhar por parte de Milena é um convite para Elmiro. Eles se amam, mas não podem se tocar. Isso é forte. Passei por experiências similares em minha vida. (...) Meu filme não é vazio. Em cada não-movimento existe um sim e acho muito ingênuo da parte de qualquer um acusar o filme de ser vazio por se tratar de um plano fixo de duas pessoas. O silêncio tem força e o meu curta metragem gera tensão" (Kássio Mário Fontana).

Ubaldo, entretanto, nos escreveu em um email: "Ao ver mais um curta metragem que problematiza o silêncio, a introspecção, o sentido e o enquadramento*, me pergunto: sou vítima de uma conspiração autoral promissora? Isso realmente existe? Após assistir a esse filme ficcional, achei até as minhas idéias super interessantes. Sharazam é um curta sem nada a acrescentar. Dois jovens olhando para a câmera durante 20 minutos, eu acho (...) Juro como esperei mais, muito mais. Enfim, tem gosto pra todo e acredito que alguém deve ter gostado desse Big Brother Cultiano. O impressão de que o cineasta não trabalha, de que tudo é um grande blefe autoral e que todos nós estamos financiando com impostos a autoralidade vazia de uma geração coloca em questão minha ética."

Resposta: A conspiração existe sim e é a grande responsável por alimentar a sede de representatividade e estima audiovisual. Seu nome científico é Nuvem Rosa do Autoralismo Promissor, estado mental paralelo no qual segmentos xiitas da sociedade audiovisual forjam realidades e realizam mostras de curtas-metragens. O guia de higiene, comportamento e comedoria do audiovisual pernambucano alerta que, por dentro de intimidação intelectual, escutas telefônicas e exibições work-in-progress, sempre existe uma universitária pagando de secretária numa seita audiovisual com vista para o Rio Capibaribe.

Maçonaria Autoral Promissora

Organização de proteção artistica promissora, a.k.a. cartel intelectual, no qual cineastas recifenses criam uma comuna cinematográfica impermeável para garantir proteções, alianças e screenings, numa maçonaria da sétima arte. É a grande responsável por determinar o sentido de tempo e época, que motiva a produção cinematográfica recifense.

*As já supra citadas evocações e problematizações de elementos como introspecção e enquadramento, buscando a "verdade" e o "silêncio", são, indiscutivelmente, consequências do estado mental distorcido resultante desta conspiração audiovisual. Mas preste atenção: nem só de cineastas consiste a maçonaria autoral promissora. Críticos de cinema, curadores de festivais e membros da geração derrotada Panquecas & Saladas 90's indie rock engrossam o caldo recifense promissor desta seita xiita, que mantém frequentemente reuniões secretas com a finalidade de manter vivas as fontes de inspirações para os mais fundamentalistas projetos, ao som de Lara Hanouska e Paulo Francis vai pro Céu.

Origens da Nuvem Rosa

Crianças brincam juntas nos anos 80. Crescem, entram na adolescência nos anos 90, continuam amigas, ouvem The Prodigy. Frequentam festas, dividem alegrias. Viram adultos, assumem cargos de importância. Se apoiam publicamente através desses cargos e passam o resto da vida sustentando um ao outro numa forma indireta de especulação intelectual.

"Breathe the pressure, come play my game and i'll test ya! Psycho! Somatic! Addict! Insane! Cooooome plaaayyyy myyyy gaaaaameee. Inhale, Inhale, You're the victim! Exhale! Exhale! Exhale! " (cineasta autoral promissor gordo, em plena era rave, cantando The Prodigy em intervalo do show da banda Eddie em 1997).

Work-in-progress? Pior é morrer!

O encontro semanal desses dândis do audiovisual recifense não poderia ocorrer de forma mais agradável. A Casta da Nuvem Rosa se concentra religiosamente na casa de membros da milícia audiovisual durante as noites de sábado, para reuniões politicas, degustação culinária e sonora, além de exibições work-in-progress de seus últimos projetos. É um importante e descontraído momento interno do audiovisual, em que apertos de mãos são feitos, pautas culturais para os jornais locais são determinadas, e também discussões relevantes sobre atualidades e/ou assuntos polêmicos do país e do mundo nos quais a classe precisa se posicionar, como por exemplo a "questão Mallu Magalhães".

Nestas restritas exibições Work in Progress, cineastas do alto escalão da Nuvem Rosa assistem aos últimos cortes de seus trabalhos recém-renderizados em dvd e traçam opiniões entre si sobre elementos recorrentes, como o poder do silêncio, o timing, enquadramentos, e o repúdio à narrativa barroca, por exemplo. Em casos mais raros, existe também a leitura de argumentos e roteiros recém-tratados, além de flerte com damas e cavalheiros da sociedade, onde o evento passa a adquirir caráter Sarau.

Auto-ajuda para os mais inseguros

Nem só de positividade vive o audiovisual. A Noite Rosa é também local de desabafo e auto ajuda, afinal existe sempre um cineasta que cede às criticas e passa a se achar farsa. Este é um momento da classe de união, e de distribuir positividade para os mais necessitados. Ajuda psicologica é oferecida, além de um ritual, que só ocorre em casos mais extremos.

Neste ritual, membros do clã se juntam numa roda ao som de Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e centram-se para ajudar o companheiro necessitado. Cada membro diz o que pensa dele em 3 palavras-chaves, positivas ou negativas, como forma de expor os mais diversos sentimentos dentro da discussão. Este ritual possui caráter eficaz e os mais espertos já usam a presença dentro deste conselho da classe como forma de ascensão social e corrupção, através de elogios e micro-alianças internas.

"Fiz zum zum e pronto, Fiz zum zum e pronto, Fiz zum zum" (Moraes Moreira)

Parte 6. Anauê Manamauê



Cinema regionalista em 2008: fronteiras autorais nos jardins da razão.

"Possuo uma produtora de audiovisual localizada no bairro de Afogados, em Recife, sendo minha produção de cunho regionalista. Gostaria de ter aproveitado a cena abundante da década de 90, na qual a falta de referencial faria o público julgar original o ato de filmar cactos e inserir amigos na trilhas sonoras de meus filmes. (...) Entretanto, só entrei no mercado audiovisual em 2002 e, com a decadência do fenômeno mangue, meus produtos foram culturalmente desvalorizados. Como fazer para ignorar o fato de que o regionalismo é uma bicicleta ergométrica autoral e ao mesmo tempo encabeçar uma nova moda de cinema regional no Estado de Pernambuco?"

Como podemos observar acima, é ainda presente a legião de Caranguejos com Cérebro atuantes no mercado audiovisual recifense. Para esses mangueboys do audiovisual, a situação realmente não está fácil. Após a morte de seu principal mentor, Chico Science (ou Neo-Capiba, segundo os céticos) a cena mangue entrou em decadência, para a felicidade das guitar-bands e cineastas urbanos. Desde então, filmar paisagens áridas e fazer associações vazias com a obra de Josué de Castro parecem não mais gerar os prolíficos resultados da década anterior. Como fugir desse caritó autoral promissor?

Nascer na década errada não é mais motivo de problema para quem não consegue se adaptar aos novos tempos. O Guia de Higiene, Comportamento e Comedoria para o Audiovisual Pernambucano ensina ao leitor como fingir estar na década de 90 utilizando considerações de Chico Science e Plínio Salgado, para construir uma carreira cinematográfica regionalista de sucesso em 2008.

"Eu acho que tem um pouco de clichê mas faz parte da música pop. Acho que um som legal sempre influência as pessoas. Não acho nenhum crime uma banda ser influenciada pela Nação Zumbi. A própria Nação Zumbi sofreu influência do Olodum, coisa que eles não gostam muito de comentar." (Renato L., ministro da comunicação do manguebeat @ http://www.officina.digi.com.br/entrevista2.html )

Como fingir que 2008 é 1993

Todos sabem que os ciclos culturais duram aproximadamente 10 anos. Este é o tempo que produtos artisticos diversos precisam para se renovar década após década. Se em 1991 o mundo vibrava com Smells Like Teen Spirit, da mesma forma o fará em 2011. Antecipe-se e encabece imediatamente um movimento de festas-revivals para o Manguebeat e cena cultural regional recifense 90's chamadas "Há um tempo atrás se falava de bandidos", com cartazes feitos por Dolores & Morales, e fortaleça a criação de um consciente coletivo de Neo Regionalismo Pop para facilitar financiamentos com o Governo do Estado.

Tenha a consciencia de que não só o cinema pernambucano ganha com isso: teremos também uma nova edição do Mercado Pop, um revival do lineup de 1994 do Abril Pro Rock e do tão esperado retorno do Jorge Cabeleira & o dia que seremos todos inúteis, que não aguenta mais aguardar o momento adequado de uma volta mangue para entrar em ação.

"Se a Democracia é a livre expressão da personalidade humana, é preciso buscar nas raízes do Homem o princípio vital do sistema político a que ele aspira." (Plínio Salgado)


Fazendo a íntima com Elias Hedonismo

O principal passo para ser um bem-sucedido neoregionalista do audiovisual é o mais desafiador: sair ileso das criticas de Elias Hedonismo. Conhecedor de artes em geral, incluindo a banda Fellini, que ama, elias é o grande obstáculo a ser vencido para se ter paz neste terreno. Como uma versão 90's dos Irmãos Evento, é frequentador de vernissages, debates com realizadores do audiovisual, encontros para leitura de poesia marginal, entre outros, e, para quem nao quer ouvir perguntas do tipo "Porque o seu curta-metragem é tão chato?", é bastante recomendável promover agrados à sua pessoa.

"O filme trata da trajetória das pessoas que viviam nas margens dos rios, nos mangues do Recife e região metropolitana e que, com o crescimento desordenado dessas áreas, foram expulsas pelo soterramento dos alagados, indo parar nos lixões das periferias." (Artigo sobre "Tainá 3: Uma Aventura no Mangue")

Mulambo eu, mulambo tu

Tem gente que nasceu pra ser público e Plínio Salgado, assim como Chico Science, sabia disso. O cineasta regionalista deve saber como agregar ensinamentos integralistas de 1932 para criar um produto audiovisual de raíz e, assim, utilizar arte para falar indiretamente de política e defender interesses pessoais.

"O cineasta deve fazer o filme que precisa fazer" (Gustavo Serrate)

Faça um documentário sobre Roger de Renor

Aplaudirão o seu curta-metragem mesmo se ele nao prestar. Afinal, ao assistir um documentário autoral promissor, o público perde a noção de que na verdade assiste a um filme e, para gostar, tudo passa a ser uma questao de simpatia com icones. Nosso guia alerta: Fred Zero Quatro, Fábio Trummer e Roger de Renor ainda nao tiveram documentários produzidos sobre suas pessoas. Cineasta regional não perde tempo: jogo ganho.

"Como todos na mesa tinham projetos artísticos a gente resolveu aumentar o projeto em si. Dissemos a Chico Science que era perigoso chamar um groove de mangue por que faria com que ele ficasse preso para sempre nesse ritmo que era uma coisa contra os nosso princípio que é o da diversidade. Começamos então a viajar neste conceito e creio que 70% do que se fala do mangue hoje saiu naquela noite." (Renato L., ministro da comunicação do manguebeat @
http://www.officina.digi.com.br/entrevista2.html )


Parte 7. Deus criou a amizade, os pássaros e o festival de Cannes



Deus criou a vida, os pássaros e a amizade. Criou também a inveja, a Aids e o festival de Cannes.

Exibições e prêmios são momentos especiais na carreira de qualquer cineasta recifense e, no caso de festivais especiais como Clermont-Ferrand e Cannes, definitivos para o sagramento da excelência do trabalho pela nata critica do audiovisual. Prêmios nestes festivais podem ser considerados com uma agraciação divina para o talento de poucos e a gênese de semi-deuses na terra em regiões provincianas situadas no nordeste do brasil. Para estes verdadeiros teseus do audiovisual, a sorte está lançada e a bonanza profissional garantida. É momento de colher os frutos e pensar no futuro ao retornar para sua cidade natal. Em toda a história, apenas 3 pernambucanos exibiram seus trabalhos em Cannes. O guia de higiene, comportamento e comedoria para o audiovisual pernambucano, prevendo os dias incertos que estão por vir, atesta públicamente que o companheirismo é uma questão séria e não pode ser ignorada. Para todos os pernambucanos, que exibiram ou não em importantes festivais de audiovisual, evitemos possiveis constrangimentos sociais, para criar uma classe unida e feliz, devota a Deus e aos bons modos, com dicas-bônus da dupla de palhaços pedagogos Patati & Patatá.

"Só seu sorriso tem a força,
Poder e a alegria de viver.
Com seu sorriso vou conquistar
A alegria de viver e sonhar"
(Patati & Patatá, A força do sorriso)


Como fingir estar feliz em um momento de agonia

Seu rival autoral promissor ganhou prêmios e agora todas as atenções estão voltadas pra ele. Quer saber? Pior é morrer. Assim como uma boa higiene bucal, um bom sorriso ainda abre portas e garante o prolongamento da farsa. Fingir estar feliz neste momento de agonia é bem mais fácil do que parece e um simples sorriso pode resolver problemas de ansiedade, ira, resignação, inveja, seborréia, entre outros. Com calma, sem equívocos e olhando sempre no olho de seu adversário, é possivel fingir estar feliz pelo sucesso de alguem que voce demoniza. Mesmo não sendo agradável, muito pior é ser conhecido pela cena como uma pessoa que não sabe lidar com adversidades. Comprimente o cineasta, proponha parcerias futuras e, após se infiltrar em sua rotina, uma sabotagem pode ser melhor planejada.

Ser feliz é o maior prêmio

Quando estiver triste por nao ganhar premios, lembre-se que o mais importante na vida é ter amigos, ser carinhoso com a mãe natureza e ter paz no coração. Jesus nos fez como sua imagem e semelhança e, por isso, devemos ser bons com os nossos colegas e amigos. Trate bem sua familia, seus colegas e elogie seu amigo cineasta sempre que puder. Beba leite antes de dormir e nao pegue Aids.

"Hahaahhha Como assim? Eu sempre gostei do seu trabalho! Hahahahah"
(Engenheiro de som não tão promissor assim, mentindo)


Abafe o caso e psicografe lombras

Evite tornar o "incidente Cannes" uma grande coisa: minimize-o para sua própria saúde mental. Quanto mais pessoas souberem do fato, mais você terá que ouvir parabenizações públicas de pessoas que na verdade buscam um emprego como diretor de arte e isto não é agradável. Use o seu poder de mídia para psicografar lombras no mundo audiovisual, quer lá o que isso signifique, e distraia o público provando que você também faz coisas interessantes e don't give a damn about the hype. Como a classe de excluídos e não-talentosos é vasta, você terá vários adeptos à sua causa.

Para os bem-sucedidos, companheirismo é não ficar convencido

Ao chegar no bar Capitão Lima após uma bem-sucedida viagem de divulgação com exibições no festival de Brasilia e no Curta Cinema do Rio de Janeiro, companheirismo é não comentar o fato com seus colegas cineastas indies locais. Todos eles já sabem o quão talentoso você é e, como nem todos são tão talentosos assim, sempre vai ter alguém desejando que voce estivesse morto ou com Aids. Numa situação como esta, ser companheiro é não se sentir superior por ser agraciado com talento e não usar isso como razão para gerar aloka moments em pessoas que já são infelizes naturalmente

Atenção: Este é um comportamento que não só faz bem ao carma, mas como também à sua imagem pessoal. Uma vez bem-sucedido no que faz, você se torna alvo de agouros sociais, e é necessária a aplicação de astúcia e politicagem para evitar fazer com que a classe artística o demonize. Estas pessoas, embora fraudes, são formadoras de opinião locais e isto é algo que pode fazer seu império ruir. Seja conhecido como uma pessoa que possui várias virtudes e que não se ilude facilmente com o sucesso e com a Nuvem Rosa. É Fato: ter um bom relacionamento com a cena audiovisual tornará você ainda mais superior.

Saia de Recife

Todos querem sair de Recife. Esforços de fazer curta-metragens, gravar discos, escrever livros, entre outros, são apenas algumas das formas de alcançar este tão almejado objetivo. Existe um limite de tolerância para essa cidade quente e pobre e exibições em Cannes são um ótimo primeiro passo para a alforria. Cineastas autorais promissores disputam internamente quem será o primeiro a deixar este cisto urbano e isso por si já deve ser considerado um sinônimo de talento. Ao invés de desejar o mal de quem obtem sucesso, busque o mesmo caminho: saia desta cidade.

"Um aperto de mão eu vou dar, Um aperto de mão pra dizer que estou muito feliz. Como é bom ser feliz" (Patati & Patatá, Como é bom ser feliz)